ESCLARECIMENTO: Maternidade e Trabalho é um tema tão complexo que resolvi me aproximar dele devagar. Falo a partir do lugar de quem trabalha diariamente com esse tema, vendo mulheres e mães encontrarem saídas potentes para seus próprios dilemas -- o que, invariavelmente, significa chamar outros para dialogar e negociar. Desse lugar, e por também ser mulher e mãe, preparei uma série de textos chamada "Maternidade + Trabalho: o que isso tem a ver com você?", que parte do princípio de que este é um assunto social, e não individual ou "da mulher". Em cada texto, trarei um ou dois aspectos por vez. Não quero, com isso, reduzir a questão, mas, ao contrário, ir me aproximando dela com cuidado. São textos breves, mas que buscarão não fugir da complexidade do tema -- o que nem sempre vou conseguir, mas vou tentar. Quando a série estiver pronta, desejo que consigamos ter uma leitura de um certo "todo" da questão que possa refletir de onde ela vem e para que futuro ela pode rumar, com nosso posicionamento e engajamento. Os comentários estão abertos e são muito bem-vindos. Boa leitura!


Por quê maternidade+trabalho precisa ser um dilema? De quem é esse dilema? Que saídas há para ele, que estejam nas mãos de cada mulher-mãe e suas relações, e que saídas há para ele como sociedade brasileira neste nosso cenário político?  

 

Um dilema significa que ficamos “entre a cruz e a espada”, precisando escolher OU um OU outro. Quando tratamos como dilema a volta da mulher, agora mãe, ao mundo produtivo, estamos reforçando esta lógica: a de que, sendo mãe, esta mulher já não pertence ao universo econômico, e que para adentrá-lo é necessário que se livre do papel de mãe. Daí, o “dilema”. 


Para olhar para a mãe no mundo produtivo, precisamos olhar para a mulher no espaço de trabalho. Nós só saímos do trabalho doméstico para as empresas/governo muito recentemente. Só vislumbramos a realização de um futuro diferente de casar e ter filhos nas últimas décadas. Nossas avós não viveram este “dilema”, porque entraram no papel de mãe e de lá nunca saíram.

Se nós estamos vivendo um dilema para conciliar trabalho e maternidade hoje é porque mulheres antes de nós abriram espaço para que estivéssemos no mercado de trabalho em primeiro lugar. Quer nos identifiquemos ou não, somos “filhas do feminismo” - luta sem armas que abriu e firmou espaços sociais da mulher fora da invisibilidade doméstica.  

Dos anos 1960/1970 para cá, nomeamos e demarcamos politicamente que podemos escolher casar ou não, ter filhos ou não; que somos nós a viver na pele dos nossos corpos a gestação e que, portanto, precisamos regulamentar o direito reprodutivo, tendo acesso a métodos contraceptivos caso não queiramos engravidar; que é violência doméstica e que é crime sermos agredidas fisica e emocionalmente por nossos maridos; que é assédio sexual  e que é crime ver nossas oportunidades profissionais vinculadas a favorecimento sexual, apenas para citar algumas conquistas que hoje desfrutamos como parte normal de nossa realidade.

 

1950 para 2016: da mulher doméstica, mãe e servil à mulher profissional que precisa "deixar de ser mãe" para manter seu cargo. Como queremos mudar esse cenário daqui pra frente? 

Demos um salto descomunal em um intervalo de 60 anos. Mas, se é fato que a mulher ainda precisa se firmar no ambiente de trabalho como alguém tão valorosa quanto um homem (leia mais sobre isso aqui e aqui), imagine a mãe! 


Atribuir apenas à mulher a escolha entre ser mãe e se desenvolver profissionalmente mantém nas costas da mulher o papel histórico de ser a principal cuidadora de um filhx. Como se o pai da criança não tivesse a mesma responsabilidade de co-cuidador — e, portanto, como se ele também não precisasse reorganizar suas prioridades profissionais para incluir os cuidados com seu filhx em sua rotina. Precisamos parar de dizer que maternidade e trabalho é um dilema “da mulher”. Não é. 

 

O que os números de demissões na gestação e na volta da licença-maternidade nos dizem, para além da evidente sobreposição do valor financeiro à criação de um ser humano, é que, do ponto de vista econômico, esta questão só é um dilema porque o mercado ainda não abriu espaço para olhar para a mulher-mãe como uma profissional que tem necessidades diferentes de outras mulheres, que vão além da licença de 4 a 6 meses e do berçário na empresa - que, claro, já são avanços. Levar a maternidade pra dentro do mundo econômico para compor um novo modelo de trabalho é o próximo salto que precisamos dar.


O que está nas nossas mãos fazer para mudar esse cenário?

Muita coisa.

A primeira delas passa por uma espécie de fortalecimento da mulher-mãe em saber que essa questão não é só sua -- ela vem de uma cultura que ainda afirma que"mãe é pra ficar em casa", invisível, e que a criação dos filhxs ainda é uma atribuição majoritariamente da mulher.
E, pra gente se fortalecer, precisamos andar em bando ;-)

Precisamos trocar, conhecer outras histórias, entender como outras mulheres fizeram para encontrar o equilíbrio entre esses dois pólos, maternidade e trabalho. 

Além do CGM e do Coaching para Mulheres, que ofereço, há alguns grupos na internet incríveis, que falam diretamente sobre Maternidade e Trabalho. Você já é parte deles? Gosto muito do Maternativa e do Co.Madre, mas há muitos outros.

A segunda coisa é saber que apesar desta questão ser social, somos nós, mulheres-mães, que vivemos em nossa pele ter que escolher entre exercer uma maternidade ativa ou se desenvolver profissionalmente (o que significa ser independente financeiramente, seguir construindo uma carreira sem pausas etc).

Somos nós que concretamente temos nossa identidade e história profissional afetadas por essa questão. E, por isso, cabe a nós nos posicionarmos e nos engajarmos para colocar essa questão em movimento, em direção a um cenário satisfatório, não excludente. Esperar que "o outro" - o companheiro, a empresa, o sócio, o governo - faça algo para mudar este cenário sem o nosso engajamento é perder nosso tempo de vida e correr o risco de entrar em uma espiral descendente de onde ficará cada vez mais difícil sair pra se reinventar. 

A partir desse fortalecimento, é possível que você se sinta legitimada a abrir diálogo e fazer propostas. A saber o que quer e por quê isso é digno de ser resguardado em suas relações. A não mentir por precisar buscar seu filho na escola por medo de sofrer assédio moral e ser onerada depois. A entender profundamente a dignidade de ser mãe+profissional, e de como isso efetivamente SOMA qualidades e, também, novas necessidades que precisam ser valorizadas -- em primeiro lugar, por você. 

Terceira coisa, para você, empresa: para manter essa mulher-mãe em seu cargo em vez de gastar tempo e dinheiro abrindo novo processo seletivo, é fundamental abrir diálogo com ela, negociar uma nova proposta que dê conta de garantir as necessidades mínimas dos dois lados. Uma proposta com prazo definido que traga flexibilidade de horários, que meça produtividade por entregas e não por horas na cadeira, que possibilite homeoffice em períodos na semana caso isso seja solicitado e até que estenda a volta da licença se preciso for. Aqui você encontra alguns exemplos de saídas criativas para resguardar as necessidades da mulher-mãe-profissional e da empresa (veja aqui exemplo na Netflix nos EUA e de uma executiva na Bridge, em São Paulo, que propôs à empresa conveniar-se à Casa de Viver, coworking familiar que ajudei a nascer em processo de Mentoria). 

Diálogo e cocriação: duas palavras centrais para desenhar saídas viáveis e potentes em que todo mundo ganha, empresa, mulher, bebê, família.

Abrir diálogo e cocriar um novo modelo de trabalho para reter uma mulher-mãe enquanto ela se adapta à nova rotina é um caminho realmente novo em nossa cultura, que aproxima empresa e colaboradora em vez de distanciá-los, e que pode trazer inovações para toda forma como a organização faz a gestão de pessoas.

No site Mãe at Work há um verdadeiro acervo de histórias que trazem o processo criativo de como mulheres e empresas/sócios desenharam propostas caso a caso para gerar novos modelos de trabalho, e o resultado para a mulher e para a organização.
Selecionei duas que me chamaram atenção: 

Ótimos textos. Pra gente caminhar daí pra frente.
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Veja também: She's Beautiful when She's Angry, documentário sobre o movimento de Liberação da Mulher dos anos 1960/70. Disponível no Netflix. 

 

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