Você viu a foto de capa? Te convido para ver de novo. Ela diz muito.

São homens e mulheres se ouvindo. Homens e mulheres se ouvindo com qualidade: como se ouvir o outro fosse a coisa mais interessante a ser feita naquele momento.
São pais e mães falando sobre suas experiências com a criação dos filhxs. Ou melhor: sobre o que criar um filhx está fazendo com cada um deles. 

"O que me fisgou foi constatar a solidão masculina", disse uma mãe participante.

"Abri mão da ideia do marido como provedor", disse um pai participante.

Essas e outras partilhas aconteceram no Entre Nós // escuta e diálogo entre pais e mães, série de encontros que eu e meu companheiro Victor Farat (coautor do livro Bebegrafia e facilitador de rodas de pais do coletivo Balaio de Pais) facilitamos e que tem todo mês por aqui. Para se inscrever no próximo, dá uma olhada na Agenda!
 
É um encontro simples e potente. Um espaço seguro e bem estruturado para que homens e mulheres, casais ou não, se ouçam de verdade e ativem a empatia para perceber como cada um está na aventura de ser pai e mãe, e como podem se aproximar mais no dia-a-dia.
 

A pergunta norteadora do Entre Nós é: como reconstruir a parceria, agora que o rebento chegou?

O que esta pergunta provocou, você vê a seguir, em comentários a alguns pontos que mais saltaram aos olhos na bela síntese que o facilitador gráfico e pai Márcio Reiff fez do primeiro encontro. 

Você está me ouvindo? A solidão dos dois lados

O que levou a maior parte dos casais para o Entre Nós foi a experiência cotidiana da falta de conversa.

Isso é uma coisa quando a gente pensa que só acontece na nossa casa. Mas, ganha outra perspectiva quando percebemos que isso acontece com a maioria dos casais; quais seriam as razões para esta falta de diálogo sintomática, que traz isolamento e solidão para ambas as partes? 

"Qual é a qualidade desse novo casal que somos?", se pergunta um participante pai.
"A gente fica pensando muito e não fala", diz uma participante mãe.
"Quase não temos tempo de falar um com o outro, sobre nós, sobre o que estamos vivendo, sobre novos combinados. Quase temos que marcar na agenda uma conversa", diz outro participante.
"A gente só consegue falar quando está tudo zoado", diz um participante pai.

Se houve uma necessidade não atendida de ambos foi esta: a de terem um espaço para pensar as relações juntos.
 

Só ouvir, sem se sentir responsável por resolver a situação que o outro expôs, é libertador

Uma das práticas que exercitamos no Entre Nós é a escuta atenta e silenciosa.

Você garantir que o outro vai ser ouvido sem se sentir pessoalmente cobrado ou endereçado pelo que elx diz e, por isso, sem necessidade de responder de bate-pronto.

Reconhecer que a mudança na vida pós-chegada do rebento afetou os dois, pai e mãe, à sua maneira. Ouvir sem se sentir responsável por resolver o que o outro traz, mesmo em se tratando de uma relação de parceria nos cuidados do filhx.

O que essa escuta faz com o casal?  

"O quanto a mulher está preparada para a vulnerabilidade do homem?", perguntou um participante pai.
"Não sabemos conversar, temos monólogos", diz outro participante pai.
"Só ouvir sem ter que resolver é libertador. Posso falar o que estou pensando e sentindo sem colocar em risco a relação", disse uma das participantes mãe.
"É preciso criar generosidade para conseguir ouvir", disse outro participante pai. 
 

Machismos e Feminismos e o (novo) papel de Co-Cuidador

"Hoje parece que tudo é machismo" e "Me sinto sempre errado". Duas afirmações de participantes pais que, para mim, representam falas não ditas de muitos homens. 

A partir disso, pudemos aprofundar. Mas, que "tudo" é esse que é machismo? O que te faz sentir errado? 

As conversas rodaram em torno dos papéis de homens e mulheres nos cuidados com os filhx e em relação ao trabalho.

"Como sair da disputa?", pergunta um participante pai, referindo-se à prática de cuidados compartilhados entre pai e mãe.

Sair da concepção de "mãe cuida e pai trabalha" para uma ideia de homens e mulheres serem os co-cuidadores (co-parenting, em inglês), em que ambos trabalham e ambos escolhem o tipo de maternidade e paternidade que faz mais sentido exercerem, é algo extremamente novo, para o qual não temos manual. É a nossa geração, de pais/mães de crianças em torno dos seus 10 anos, que está vivendo isso, ao vivo. E nada melhor que fazer isso coletivamente, ouvindo de outros casais sobre como encontraram saídas para esses desafios. Ouvindo outrxs para elaborar melhor essa mudança de papéis, em que a mulher não precisa mais escolher entre ser mãe ou trabalhar, e onde o homem possa criar o tipo de vínculo que os cuidados diários de um filhx são capazes de trazer. 

Algumas falas do grupo, indicando um movimento de reconhecer heranças sobre os papéis da mulher e do homem na criação de um filhx, e de dar passos além, corajosa e criativamente: 
(obs: destaco a importância de reconhecer, na fala das mulheres, a necessidade que elas trazem para o parceiro de ele reconhecer a mudança de identidade que elas vivem atravessando o pós-parto e o puerpério). 
 
Falas dos homens:
"Se o meu crescimento profissional ficar limitado por apoiar minha esposa, eu escolho isso".
"Abri mão da ideia do marido como provedor. Quem sustenta a casa é minha mulher". 
"Nunca me imaginei casar com uma mulher que não trabalhasse".
"Todo dia busco desconstruir preconceitos".
 
Falas das mulheres:
"Sinto necessidade de fazer escolhas em conjunto". 
"Espero que alguém divida comigo".
"O machismo dificulta o homem a assumir sua vulnerabilidade".
"Eu senti necessidade de ser olhada".
"Sinto falta do casal". 
"Esvaziei meus papéis profissionais". 
"Estou voltando à necessidade de saber: 'quem é esta mulher depois de parir?'"

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